Quem pega a Rodovia Dom Pedro I no sentido de Campinas passa a poucos minutos de um dos lugares que mais ajudam a entender o século XX em Atibaia. A cerca de 10 quilômetros do centro, segundo a Secretaria de Turismo, o Rio Atibaia é barrado por uma represa antiga, com vertedouro de pedra e prédios de outra época à margem. Ali funcionou a usina que deu luz à cidade, e que deu nome ao bairro que cresceu em volta.
Hoje o lugar é lembrado mais pela água, pelos restaurantes e pelos esportes náuticos do que pela energia. Mas a história da obra é das boas.
Uma cidade atrás de luz própria
No começo do século passado, a energia de Atibaia vinha de fora. Segundo o portal Caminhos Culturais, o fornecimento cabia à Empresa Bragantina de Força, e a cidade queria mais autonomia. A solução foi construir uma usina no próprio Rio Atibaia.
O nome por trás da empreitada é o do major Juvenal Alvim, o mesmo homenageado pela escola que deu nome ao Lago do Major. Em 1925, de acordo com o Caminhos Culturais, ele conseguiu da família Pires de Camargo a doação das terras necessárias, às margens do rio, na altura de um ponto conhecido como Salto. A represa inundou cerca de 60 alqueires.
A laje que não aparecia
A Wikipédia registra um episódio que mostra o tamanho do risco. Os engenheiros contavam encontrar rocha firme a cerca de 7 metros de profundidade para apoiar a barragem. A rocha só apareceu a 14 metros. Com o dobro de escavação e o custo subindo, o major Alvim teve de recorrer a empréstimos para levar a obra adiante.
A usina foi inaugurada em 1928, segundo o Caminhos Culturais. A página da Secretaria de Turismo sobre o bairro cita outra data, 1907, para o início da usina. As fontes não explicam a diferença; a cronologia mais detalhada, com a doação de 1925 e a inauguração três anos depois, é a do Caminhos Culturais.
Energia para a região
A hidrelétrica não abasteceu só Atibaia. Segundo o Caminhos Culturais, a energia gerada ali chegava também a Jarinu, Bragança Paulista e Bom Jesus dos Perdões. Para uma cidade do interior nos anos 1920 e 1930, ter usina própria e ainda vender luz aos vizinhos era motivo de orgulho.
O sistema passou depois para a Cesp, a companhia energética estadual, e a geração foi encerrada em 1970. A barragem, porém, continuou lá, e a represa ganhou outros usos.
Pêssegos, chácaras e um bairro
Em volta da obra formou-se uma comunidade. O Caminhos Culturais conta que plantadores de pêssego se instalaram na região e deram origem ao Bairro da Usina, que até hoje leva o nome da hidrelétrica. Com o tempo vieram chácaras, casas de fim de semana e restaurantes à beira d'água.
A Secretaria de Turismo descreve o bairro como cercado de restaurantes e de um parque com área de reflorestamento. É um pedaço de Atibaia com cara de interior, onde o fim de semana é medido pelo almoço demorado e pela conversa na varanda.
Os prédios da usina
As construções originais da hidrelétrica ainda estão de pé. O Caminhos Culturais registra a intenção de que os prédios formem, no futuro, um museu. Até a publicação desta reportagem, não encontramos confirmação de que esse museu esteja aberto ao público, por isso a dica é observar a arquitetura de fora e respeitar as áreas fechadas.
Uma área de proteção ambiental
Desde 1986, a represa e seu entorno formam a Área de Proteção Ambiental Represa Bairro da Usina. Segundo o Guia de Áreas Protegidas do governo paulista, a APA tem cerca de mil hectares e é gerida pela Fundação Florestal. O endereço de referência é a Rodovia Dom Pedro I, na altura do km 79.
O objetivo principal é proteger o manancial usado no abastecimento de Atibaia e a paisagem da represa. Isso tem consequência prática para quem visita. O mesmo guia lista o que é proibido na área: fumar, deixar lixo, levar animais domésticos, consumir bebida alcoólica e fazer fogueira. As atividades indicadas são a observação de fauna, de flora e de aves.
Em outras palavras: a água que forma o cenário é a mesma que, mais adiante, chega às torneiras da cidade. A relação entre o rio e o abastecimento de Atibaia é assunto da reportagem sobre o Rio Atibaia.
O que fazer na Represa da Usina
Olhar a água e o vertedouro
O ponto mais fotografado é o vertedouro, por onde o excesso de água desce da represa de volta ao leito do rio. Em época de chuva o volume impressiona; na seca, aparecem as pedras.
Esportes náuticos
O Caminhos Culturais cita a represa como lugar de esportes náuticos. Antes de colocar barco, caiaque ou prancha na água, informe-se sobre as regras em vigor na APA e sobre os pontos de acesso permitidos. Represa não é piscina: há correnteza perto das estruturas da barragem.
Observar aves
Com mata ciliar, reflorestamento e espelho d'água, a área é indicada pelo próprio guia estadual para observação de aves. Binóculo e paciência rendem mais do que pressa.
Almoçar no bairro
O jeito mais comum de passar o dia na Usina é juntar a represa com um almoço num dos restaurantes do bairro. Como os estabelecimentos mudam com frequência, consulte avaliações recentes antes de escolher.
Dicas para a visita
- O acesso é pela Rodovia Dom Pedro I; a região fica a cerca de 10 km do centro.
- Respeite as proibições da APA, inclusive a de levar animais domésticos.
- Não se aproxime do vertedouro nem da crista da barragem; a força da água engana.
- Leve o lixo de volta. A represa protege um manancial de abastecimento.
- Como não há horário oficial de visitação divulgado para a área, vá de dia e confirme o acesso aos pontos que pretende visitar.
Perguntas frequentes
A usina ainda gera energia?
Não. Segundo o Caminhos Culturais, a geração foi encerrada em 1970, quando a usina já pertencia à Cesp.
Quem construiu a Represa da Usina?
A obra foi liderada pelo major Juvenal Alvim, com terras doadas pela família Pires de Camargo em 1925. A inauguração foi em 1928.
Pode nadar na represa?
A área é de proteção ambiental e protege um manancial. Não há liberação oficial para banho divulgada nas fontes consultadas; evite.
Para continuar o passeio
O mesmo major Alvim aparece no nome da escola que batizou o Lago do Major, no centro. Para mais natureza, a Grota Funda fica na serra, do outro lado da cidade. E se a ideia é passar mais tempo na água, procure caiaques e equipamentos de pesca na busca do AtiPerto ou veja os anúncios da cidade de Atibaia.
Foto de capa: joao batista Shimoto / Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 3.0.