Toda cidade tem um ponto de onde tudo partiu. Em Atibaia, esse ponto tem endereço conhecido e sino na torre: a Igreja Matriz de São João Batista, no coração do centro histórico. Foi ali, numa pequena capela, que se rezou a primeira missa do povoado, em 24 de junho de 1665. O dia era de São João, o santo deu nome à igreja e a data virou o aniversário oficial do município.
Mais de três séculos e meio depois, a Matriz continua sendo o lugar onde a cidade se reúne nos dias que importam: procissões, festas do padroeiro e a alvorada que abre o aniversário de Atibaia com congadas na porta.
Como tudo começou
A capela original foi erguida pelo bandeirante Jerônimo de Camargo, em homenagem a São João Batista. A primeira missa foi celebrada pelo padre Matheus Nunes de Siqueira, segundo a Secretaria de Turismo. A biografia de Camargo registra que ele organizou na região um aldeamento de indígenas guarulhos, o que ajuda a explicar a origem do povoado que se formou em volta da capela.
A sequência que a Secretaria de Turismo resume em uma frase é a história de muitas cidades paulistas: com a igreja surgiu a aldeia, depois a vila e, por fim, a cidade. Atibaia virou vila em 1769 e cidade em 1864.
A Matriz de hoje não é a capela de 1665. Ela foi crescendo junto com a cidade, e as fontes não concordam em todos os detalhes sobre cada etapa.
A Secretaria de Turismo aponta como maior reforma a de 1719, quando a capela foi elevada a paróquia de São João Batista. Outras fontes dão peso a uma ampliação de 1865, conduzida pelo atibaiense José Lucas, o mesmo nome que batiza uma das ruas mais antigas do centro. Há ainda menção a uma primeira ampliação no fim do século XVII e a um total de seis reformas desde a fundação.
O que se sabe com segurança é que a igreja foi construída e ampliada com técnicas tradicionais, entre elas a taipa, e que mudou tanto que, nas palavras de um dos guias culturais consultados, já não exibe os sinais de seus primórdios. Em 2003 o prédio chegou a ser interditado por risco de desabamento. A restauração começou no ano seguinte.
O que ver lá dentro
O painel de Benedito Calixto
O tesouro mais comentado da Matriz está no altar-mor: um grande painel do Batismo de Jesus, pintado em 1911 por Benedito Calixto, um dos pintores mais importantes da história paulista. A cena mostra São João Batista batizando Cristo no Jordão, tema óbvio para uma igreja dedicada a ele.
A história por trás da obra é das boas. Segundo o guia Cidade e Cultura, a pintura original do altar era um Crucificado, substituído pelo painel de Calixto. E o pintor teria feito o trabalho como pagamento pelo tratamento de uma filha que estava com tuberculose.
Imagens espanholas e barrocas
No interior há também imagens trazidas por padres agostinianos vindos de Castela, na Espanha, que ficaram 24 anos na cidade no começo do século XX. Ao lado do padroeiro, no altar, ficam as imagens de Zacarias e Isabel, pais de São João Batista. Vale reparar também nas pinturas do teto e nas paredes laterais.
A Matriz no calendário da cidade
O 24 de junho é o grande dia. A festa do padroeiro coincide com o aniversário de Atibaia, e as comemorações começam cedo, com a alvorada: os ternos de congada se apresentam diante da igreja ao amanhecer. Se você nunca viu uma congada de perto, leia nossa reportagem sobre as congadas de Atibaia, tradição que a cidade mantém viva há mais de dois séculos.
A Secretaria de Turismo lista outras manifestações que acontecem em frente à Matriz: procissões, os bonecões do carnaval e apresentações de taiko, os tambores japoneses que lembram a forte presença nipônica na cidade.
Dicas para a visita
A Matriz é uma igreja paroquial em funcionamento. Os horários de abertura e de missas mudam ao longo do ano, então vale consultar a paróquia antes de ir, sobretudo se quiser ver o painel com calma, fora do horário de celebração. Durante as missas, a visita turística deve esperar.
Roupas discretas são bem-vindas, e fotos costumam ser permitidas fora das celebrações, mas pergunte antes de usar flash. Se for de carro, as ruas do centro são estreitas e o estacionamento é concorrido em dia de festa. Chegar a pé, a partir de algum estacionamento próximo, costuma ser mais prático.
A melhor época é a semana do aniversário, em junho, quando a igreja e a praça ficam no centro da programação. Em qualquer outro período, um fim de tarde de semana permite ver a fachada com luz bonita e a praça mais tranquila.
O que fica perto
A Matriz é o ponto de partida natural de um passeio a pé. Bem ao lado está o Casarão Júlia Ferraz, solar do século XVIII restaurado. A poucos passos ficam o Museu Municipal João Batista Conti, na antiga Casa de Câmara e Cadeia, e o Cine Itá Cultural, logo atrás da igreja. Um pouco mais adiante, a Igreja do Rosário conta outra parte da história da cidade. Para um roteiro completo, veja o guia do Centro Histórico de Atibaia.
E se você mora na cidade ou está chegando, confira o que está à venda no centro e nos bairros na página de Atibaia do AtiPerto.
Foto de capa: Mike Peel (www.mikepeel.net) / Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.