Às seis da manhã de 27 de dezembro, enquanto boa parte de Atibaia ainda dorme a ressaca do Natal, o centro acorda com sino, fogos e tambor. É a alvorada dos ternos de congada, que se encontram na praça da Matriz para abrir o dia de Nossa Senhora do Rosário. No dia seguinte, a cena se repete para São Benedito. Quem nunca viu costuma ficar surpreso com a quantidade de gente, com as fardas coloridas e com o fato de que aquilo não é apresentação para turista: é devoção, e das antigas.
As congadas de Atibaia estão entre as tradições populares mais longevas do interior paulista. Hoje são quatro grupos em atividade, conhecidos pelas cores: Azul, Verde, Rosa e Vermelha.
Uma festa que nasceu na casa da cidade
A explicação mais detalhada sobre a origem da congada local vem de Lilian Vogel, gerente de Folclore e Cultura Popular da prefeitura e integrante das comissões paulista e nacional de folclore. A partir de pesquisa de história oral, ela conta que muitos fazendeiros e coronéis da região tinham duas propriedades: a fazenda e a casa da cidade. No Natal, a família se mudava para a casa do centro e levava junto os escravizados, que cuidavam da comida, da decoração e da limpeza para receber parentes e convidados. Parte deles ficava nas próprias casas; outra parte, em alojamentos nos arredores da rua que hoje se chama 13 de Maio.
Os negros não podiam entrar na Matriz de São João Batista, a igreja dos senhores. Frequentavam apenas a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, erguida por eles e para eles. Depois de servido o almoço de Natal, eram liberados para fazer suas manifestações diante dela. Daí surgiu o levantamento dos mastros de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito, que até hoje abre o chamado Ciclo Natalino.
Por que cada grupo tem uma cor
Os ternos se formaram de acordo com a fazenda a que os escravizados pertenciam. Era o dono quem fornecia as roupas, e por isso cada grupo passou a ser reconhecido pela cor da farda. A lógica sobreviveu à escravidão: as cores continuam identificando os quatro grupos que saem às ruas hoje.
Quantos anos tem a tradição
Aqui as fontes não batem, e vale contar isso com franqueza. A Atibaia em Revista fala em "mais de 300 anos de tradição conforme registros que a cidade mantém". O guia Cidade e Cultura, ao tratar da Igreja do Rosário, fala em grupos com mais de 260 anos. As duas contas apontam para o século XVIII, mesma época em que a Igreja do Rosário ficou pronta. O que ninguém discute é que se trata de uma prática de vários séculos, mantida sem interrupção conhecida até hoje.
Fé, tambor e latim
A congada mistura matriz afro-brasileira com elementos ibéricos e católicos. Em Atibaia, a Atibaia em Revista descreve o ritual como um conjunto de cortejos, danças, bastões, bandeiras, tambores, chapéus enfeitados e rezas, muitas delas em latim. Os santos de devoção são Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, com reverência também a São João Batista, padroeiro da cidade.
Os instrumentos mais ouvidos são tambores, caixas e guizos. Os congadeiros cantam e dançam enquanto avançam, e o percurso entre as igrejas faz parte do rito. Para a mesma publicação, a congada é também afirmação de identidade negra: uma forma de contar, pelo batuque e pela dança, histórias que ficaram fora dos livros.
O nome da festa mudou ao longo do tempo. Lilian Vogel lista quatro denominações usadas no passado para o que hoje se chama Ciclo Natalino: Festa do Rosário, Festas do Natal, Festas de Final de Ano e Festa da Congada. "Mas elas são uma só", resume. A cavalhada, que faz parte do ciclo, ainda leva o nome de Cavalhada de Nossa Senhora do Rosário.
O Ciclo Natalino, dia a dia
A programação muda um pouco de ano para ano, inclusive nos horários. O roteiro abaixo segue o que foi divulgado pela prefeitura e pela imprensa local em edições recentes e serve como referência, não como agenda.
25 de dezembro: os mastros
À tarde, na Praça Guilherme Gonçalves, diante da Igreja do Rosário, os congadeiros levantam os mastros de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito. Em seguida sai a procissão do Menino Jesus, que em edições recentes seguiu pela Rua José Lucas até a Matriz.
26 de dezembro: a cavalhada
Na mesma praça acontece a cavalhada, com bênção dos animais.
27 e 28 de dezembro: os dias dos santos
São os dias mais intensos. Começam com a alvorada dos ternos ao amanhecer, seguem com o cortejo da coroa, que leva os festeiros da Matriz até o Rosário, missas pela manhã e à noite e uma procissão pelas ruas do centro. O dia 27 é dedicado a Nossa Senhora do Rosário; o 28, a São Benedito. Na programação de 2025, a noite do dia 28 terminava com o Reinado de São Benedito, cortejo que saiu do Rosário pela Rua José Lucas até a Matriz. Em outros anos, a noite fechou com queima de fogos.
Janeiro: a descida dos mastros
O ciclo termina com a descida dos mastros, no começo de janeiro. A data varia: uma programação divulgada pela prefeitura marcou o 7 de janeiro; a de 2025 para 2026 indicou o 11.
Não é só no Natal
As congadas também aparecem no 24 de junho, aniversário de Atibaia e dia de São João Batista, quando os ternos participam da alvorada diante da Igreja Matriz e dos cortejos pelo centro histórico. Os grupos também levam a tradição para fora da cidade, em eventos estaduais como o Revelando SP, encontro de cultura tradicional paulista.
Como assistir
O palco é o centro histórico, num trajeto curto entre a Matriz, a Igreja do Rosário e as ruas José Lucas, José Alvim e Visconde do Rio Branco. Dá para acompanhar tudo a pé, e é o melhor jeito: nos dias de festa as ruas ficam fechadas ou cheias, e estacionar perto é difícil.
Algumas atitudes fazem diferença:
- confirme a programação do ano com a prefeitura, porque horários e datas mudam;
- lembre que os congadeiros estão num ato religioso, não num show;
- não atravesse o cortejo nem fique no meio do caminho dos grupos;
- para fotografar alguém de perto, peça licença antes.
A alvorada, às seis da manhã, é o momento menos disputado e um dos mais bonitos. À noite, a Igreja do Rosário iluminada, como na foto que abre esta reportagem, vira o centro de tudo.
Perguntas frequentes
Quantos grupos de congada existem em Atibaia?
Quatro em atividade, identificados pelas cores das fardas: Azul, Verde, Rosa e Vermelha.
Precisa pagar para assistir?
Os cortejos, a alvorada e o levantamento dos mastros acontecem em praças e ruas públicas do centro.
Qual é o melhor dia para ver?
O 27 e o 28 de dezembro reúnem alvorada, cortejos, missas e procissões. Fora do Natal, o 24 de junho é a outra grande data.
Continue o passeio
As congadas fazem mais sentido para quem conhece o cenário. Leia sobre a Igreja do Rosário, onde tudo começou, e monte o roteiro a pé pelo Centro Histórico de Atibaia. Vai passar o fim de ano na cidade? Veja o que está anunciado perto de você na página de Atibaia do AtiPerto ou procure uma casa para temporada.
Foto de capa: Sintegrity / Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.