Atibaia tem fama de cidade de serra, morango e flores, e muita gente passa anos indo para lá sem descer do carro no centro. É uma pena. Em poucas quadras, entre ruas de paralelepípedo e sobrados de janelas altas, cabe a história inteira da cidade: a capela onde tudo começou em 1665, a igreja que os escravizados ergueram para si, a antiga cadeia, um solar de taipa, um cinema dos anos 1950, um coreto, um mercado e até uma cruz cercada de lendas.
Este é um roteiro para fazer a pé, sem pressa, numa manhã ou numa tarde.
Por onde começar: a Matriz
O ponto de partida natural é a Igreja Matriz de São João Batista. Foi numa capela erguida ali que se celebrou a primeira missa do povoado, em 24 de junho de 1665, data que virou o aniversário da cidade. A Matriz atual é resultado de várias reformas e guarda no altar o painel do Batismo de Jesus, de Benedito Calixto. A história completa está na nossa reportagem sobre a Igreja Matriz.
Logo atrás da igreja, na Rua Visconde do Rio Branco, fica o Cine Itá Cultural, cinema inaugurado em 1950 e reaberto como complexo de artes no fim de 2020. Vale a parada para ver a fachada geométrica e conferir a agenda.
A antiga cadeia e o solar dos Ferraz
A poucos passos ficam dois dos prédios mais antigos do centro. O Museu Municipal João Batista Conti ocupa a antiga Casa de Câmara e Cadeia, construída em 1836: vereadores no andar de cima, presos no de baixo. Foi o primeiro prédio municipal de Atibaia tombado pelo Iphan e hoje guarda documentos, objetos, maquetes e fotos da história local.
Perto dele está o Casarão Júlia Ferraz, cuja parte térrea, de taipa de pilão, remonta ao século XVIII. O sobrado foi sede do Partido Liberal, abrigou retirantes da capital em 1924 e quase foi demolido em 1961. Só foi salvo pela luta de uma sobrinha da última moradora. Os detalhes estão nas reportagens sobre o Museu João Batista Conti e o Casarão Júlia Ferraz.
A Igreja do Rosário
Seguindo pela Rua José Lucas, chega-se à Praça Guilherme Gonçalves e à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, construída no século XVIII pelos negros escravizados, que não podiam frequentar a Matriz. É dali que partem, entre o Natal e o começo de janeiro, os mastros, a cavalhada e as congadas. A reportagem sobre a Igreja do Rosário conta essa história e o calendário do Ciclo Natalino.
O escadão e o mirante
Uma das surpresas do centro é o Escadão da Via Sacra, na Rua Dr. Álvaro Correia Lima. A escadaria de pedra e alvenaria liga o centro histórico ao corredor gastronômico da Alameda Lucas Nogueira Garcez e passa por 15 estações da Via Sacra, com ilustrações do artista Amilcar Rocha. Segundo a Secretaria de Turismo, foi revitalizado recentemente e ganhou iluminação de destaque, o que torna a descida à noite especialmente bonita.
Na mesma rua, quase em frente, está o Mirante do Muro de Arrimo, construído na década de 1950. De lá se tem uma vista aberta do bairro do Alvinópolis, com destaque para a arquitetura da Igreja do Cristo Rei. É um bom ponto para descansar as pernas e tirar fotos, principalmente no fim da tarde.
Mercado, coreto e feira
Na Praça Aprígio de Toledo ficam dois endereços que mostram o centro como lugar de vida cotidiana, e não só de passado.
O Mercado Municipal ocupa um prédio dos anos 1950 que passou por várias reformas. Lá dentro se vendem peixes, carnes, legumes, frutas, especiarias e frios, e há bares, lanchonetes e banca de jornal. A Secretaria de Turismo informa que o estacionamento do mercado também recebe feiras livres em alguns dias da semana.
Em frente ao mercado fica o Coreto Silvio Caldas, construído entre os anos 1930 e 1940. Em 27 de junho de 1999 ele foi rebatizado em homenagem a Silvio Caldas, o "seresteiro do Brasil", e ainda recebe apresentações musicais e outras atividades.
O Santo Cruzeiro e o galo
Uma das paradas com mais histórias é o Santo Cruzeiro, a cruz do martírio que fica em praça própria, em frente ao Cemitério São João Batista. Uma reportagem do curso de Jornalismo da Faat conta que, em meados do século XIX, havia uma grande cruz pintada de preto sobre a forca do antigo Largo da Forca, onde hoje fica a praça da Santa Casa. Com o fim da pena de morte, o patíbulo foi retirado, mas a cruz ficou e virou objeto de devoção.
Em 7 de setembro de 1922, a cidade inaugurou o novo cruzeiro no local atual, e a cruz antiga foi levada para a capela do Asilo São Vicente. Na mesma época, a gripe espanhola matou dezenas de atibaianos, e parte da população enxergou na mudança a causa da desgraça. O cruzeiro novo traz os instrumentos da crucificação e, no topo, um galo, que lembra a negação de Pedro. Os mais antigos dizem que, no dia em que o galo cantar, será o fim do mundo. O cruzeiro é tombado pelo patrimônio municipal.
Ao redor da mesma praça foram construídos depois os prédios dos três poderes. Um deles, erguido nos anos 1950, foi fórum com júris populares, virou Fórum da Cidadania após reforma em 2001 e hoje abriga o gabinete do prefeito, na Avenida 9 de Julho.
Dicas para o passeio
- Use tênis: o paralelepípedo e o escadão cobram o preço de sandálias finas.
- Igrejas são templos em funcionamento: evite visitar durante missas e confirme os horários com as paróquias.
- Leve água e protetor solar; boa parte do trajeto é a céu aberto.
- Em junho, na semana do aniversário, e no Ciclo Natalino, o centro vira palco de festa; programe-se para multidão.
Perguntas frequentes
Quanto tempo leva o roteiro?
Depende do ritmo e das paradas. As distâncias são curtas; o que toma tempo é entrar nas igrejas, no museu e no mercado.
Precisa de guia?
Não é obrigatório: as paradas são sinalizadas e próximas. Para informações turísticas, a Secretaria de Turismo fica na Avenida dos Bandeirantes, 227.
Depois do centro
Do centro histórico é rápido chegar ao Lago do Major, no Alvinópolis, para fechar o dia ao ar livre. Se você está pensando em morar perto de tudo isso, confira imóveis e anúncios na página de Atibaia do AtiPerto ou faça uma busca por apartamento no centro.
Foto de capa: Sintegrity / Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.