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Rádio Observatório do Itapetinga, em Atibaia: a bola branca que escuta o Sol e as galáxias

No pé da serra do Itapetinga, uma grande bola branca chama a atenção de quem passa. Dentro dela há uma antena de 13,7 metros, instalada em 1971, que ajudou a fundar a radioastronomia no Brasil e hoje leva o nome do físico Pierre Kaufmann.

Por · Publicado em · 5 min de leitura

A antena de 13,7 metros vista por dentro da redoma do Rádio Observatório Pierre Kaufmann, no Itapetinga, em Atibaia. Foto: Mike Peel (www.mikepeel.net) / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
A antena de 13,7 metros vista por dentro da redoma do Rádio Observatório Pierre Kaufmann, no Itapetinga, em Atibaia. Foto: Mike Peel (www.mikepeel.net) / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Quem sobe para a Pedra Grande ou circula pelas estradas de terra do bairro do Itapetinga acaba vendo, mais cedo ou mais tarde, uma enorme bola branca pousada no verde. Parece cenário de filme de ficção científica, e não está longe disso. Dentro dela há um radiotelescópio que, há mais de meio século, aponta para o Sol e para galáxias distantes.

É o Rádio Observatório Pierre Kaufmann, que por décadas se chamou Rádio Observatório do Itapetinga. Para a ciência brasileira, é um endereço histórico.

O que é a bola branca

A Secretaria de Turismo de Atibaia descreve a estrutura como uma redoma de polímero com estrutura de alumínio, cercada por área de proteção ambiental por necessidade técnica e científica. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE, explica a função: a redoma é transparente às ondas de rádio e protege a antena do vento e da radiação solar.

Lá dentro está o instrumento principal, uma antena parabólica de 13,7 metros de diâmetro, com estrutura metálica leve, projetada para operar em frequências de até 100 GHz. É comum ver a medida arredondada para 14 metros em textos sobre o observatório.

Rádio, não luneta

Um radiotelescópio não tem lente nem ocular. Ele capta ondas de rádio emitidas por objetos no céu, como explosões na superfície do Sol, nuvens de gás e galáxias, e transforma esses sinais em dados. Por isso funciona também de dia e com tempo nublado, e por isso não adianta esperar uma "vista" do céu ao visitar.

Como tudo começou

Segundo o INPE, o observatório começou a funcionar no início dos anos 1970, com uma pequena antena de 1,2 metro dedicada exclusivamente a observar a atividade solar. Faziam parte dos equipamentos um sistema de recepção de sinais de frequência muito baixa e um riômetro, aparelhos usados para estudar a ionosfera, a camada alta da atmosfera da Terra.

A grande antena foi instalada em 1971 e começou a operar em 1972. Foi comprada com recursos da Finep e operada no início por um grupo de pesquisadores da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Em 1979 o observatório passou ao Observatório Nacional e, em 1982, ao INPE, por meio de um comodato de 64 anos.

A Secretaria de Turismo registra um feito que costuma ser repetido com orgulho na cidade: a antena teria sido a primeira do mundo a detectar vapor d'água fora da nossa galáxia. O observatório também abriga instrumentos voltados para as explosões solares.

Quem foi Pierre Kaufmann

Desde 2019, o observatório leva o nome de Pierre Kaufmann, físico e radioastrônomo considerado um dos precursores da radioastronomia no país.

Nascido em Aix-en-Provence, na França, em 1938, ele chegou ao Brasil aos quatro anos. Segundo a Wikipédia, passou a infância numa fazenda, onde ouvia da mãe histórias sobre as "estrelas que caíam do céu", interesse que o levou a estudar Física no Mackenzie. Ainda estudante, ajudou a montar um grupo de radioastronomia que deu origem ao atual Centro de Rádio Astronomia e Astrofísica Mackenzie, o Craam.

Antes de Atibaia, Kaufmann participou da instalação do primeiro radiotelescópio do Brasil, no planetário do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. A antena, conta a Wikipédia, foi feita com tela de galinheiro e acabou destruída por vacas soltas no parque. Depois vieram os observatórios de Campos do Jordão, do Itapetinga, de Eusébio, no Ceará, e participações em projetos na Argentina e na Antártida. Ele publicou cerca de 200 artigos e morreu em São Paulo em fevereiro de 2017.

A reinauguração de 2019

O observatório passou por um período de recuperação de equipamentos e ganhou nova equipe técnica. Segundo texto da Universidade Mackenzie reproduzido pelo blog Brazilian Space, testes e validação levaram cerca de um ano e meio. A reinauguração aconteceu em 10 de dezembro de 2019, com a presença de dirigentes do INPE e do Mackenzie, do vice-prefeito de Atibaia e de familiares de Pierre Kaufmann.

A pesquisa ali envolve a atividade do Sol e sua relação com a Terra, observada por ondas de rádio, e também a radioastronomia galáctica e extragaláctica, como a observação de quasares.

Sala de aula a céu aberto

O observatório é usado na formação de estudantes. Em 2023, o INPE noticiou a visita de uma turma de alunos do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, que conheceu o funcionamento e a operação da grande antena.

Dá para visitar?

O observatório fica no bairro do Itapetinga, com acesso pela Estrada do Mackenzie e por estradas de terra, segundo a Secretaria de Turismo. É uma instalação científica, não um parque, e não há programação de visitas ao público publicada em fonte oficial atualizada. Escolas e grupos interessados devem procurar o INPE ou o Mackenzie antes de ir.

Mesmo sem entrar, a redoma pode ser vista à distância por quem circula pela região, e entra no campo de visão de quem caminha pela serra. Respeite a cerca e a área de proteção: ela existe também para reduzir interferências nas observações.

Dicas

  • Estradas de terra pedem atenção em dia de chuva; carro baixo sofre.
  • Celulares e rádios não atrapalham quem olha de longe, mas a área cercada não é passagem.
  • Combine com a subida à serra: o observatório fica no mesmo setor da cidade que a Pedra Grande.

Perguntas frequentes

Por que a antena fica dentro de uma bola?

A redoma protege a antena do vento e do sol e é feita de material que as ondas de rádio atravessam, segundo o INPE.

Quem administra o observatório?

O INPE, em parceria com a Universidade Presbiteriana Mackenzie, que deu início ao projeto nos anos 1970.

Por que o nome mudou?

Em 2019 o Rádio Observatório do Itapetinga passou a se chamar Rádio Observatório Pierre Kaufmann, em homenagem ao pesquisador que ajudou a criá-lo.

Para seguir pela serra

O observatório está no caminho de quem vai à Pedra Grande e ao Parque Estadual do Itapetinga. Do alto da serra, é comum ver os parapentes do voo livre. Se o passeio despertou o astrônomo da família, procure telescópios e binóculos na busca do AtiPerto ou veja os anúncios da cidade de Atibaia.

Foto de capa: Mike Peel (www.mikepeel.net) / Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Fontes consultadas

Redação AtiPerto · Equipe editorial

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