Na Avenida Jerônimo de Camargo, quem passa vê uma estação de trem com plataforma, trilhos e vagões antigos. O visitante desavisado conclui que ali parava o trem de Atibaia. Não parava. A Estação Atibaia foi construída décadas depois de o último trem deixar a cidade, por um homem que sonhava ter a própria ferrovia. A história dela é, ao mesmo tempo, a história de um sonho particular e a de uma ferrovia que a região perdeu.
Quando o trem passava por Atibaia
A ferrovia de verdade era a Estrada de Ferro Bragantina. Segundo a Wikipédia, ela foi construída por fazendeiros de Bragança, interessados em escoar café até o porto de Santos. A linha saía de Campo Limpo Paulista, onde encontrava os trilhos da São Paulo Railway, a ferrovia dos ingleses, e seguia rumo a Bragança.
As obras começaram em 1878, pararam por quase dois anos e foram retomadas em janeiro de 1884. Em 4 de maio de 1884, o primeiro trecho foi aberto ao tráfego, até Atibaia. Em agosto do mesmo ano os trilhos chegaram a Bragança.
Caetetuba, Maracanã e o ramal de Piracaia
Dentro do município, os trens paravam em estações como as de Caetetuba e Maracanã, nos extremos do território. Em 1914 foi aberto o Ramal de Piracaia, que saía de Caetetuba e passava pela cidade de Atibaia, com 30,6 quilômetros de extensão.
Em 1903 a Bragantina foi comprada pela São Paulo Railway e virou ramal. Depois, a crise do café de 1929 começou a minar as ferrovias paulistas, que tinham sido construídas em função dele. A Revista Ferroviária lembra que a Bragantina também era via de escoamento de açúcar e tabaco.
O fim da linha
O golpe definitivo veio do asfalto. A Rodovia Fernão Dias, de 1958, segundo a Wikipédia, "selou a sorte" da Bragantina. A ferrovia passou ao governo paulista e ainda resistiu alguns anos com movimento reduzido. Em 21 de junho de 1967 circulou o último trem. Os trilhos foram retirados pouco tempo depois.
Um museu no quintal
É aqui que entra José Augusto Roberto. Segundo reportagem da Revista Ferroviária de dezembro de 2009, o empresário do setor de transportes cresceu em Taiúva, no interior paulista, vendo trens da Sorocabana cruzarem a cidade no fim da tarde. Na chácara que tinha em Atibaia, a cerca de 200 metros de onde passava a antiga Bragantina, decidiu reconstruir ali parte do patrimônio ferroviário paulista.
Para abrigar o museu, ele construiu a própria estação, a que deu o nome de Estação Atibaia, recriada à imagem das estações de Caetetuba e Maracanã. Construiu também uma linha férrea de cerca de 2,6 quilômetros, com projeto de engenheiros da Fepasa, para passeios dentro da propriedade, e plantou pinheiros ao longo dela.
O Museu Ferroviário de Atibaia funcionou ali a partir de 1986, durante 23 anos. Havia restaurante e lanchonete em dois vagões-restaurante adaptados e uma área expositiva com cerca de 500 peças ligadas às ferrovias paulistas: fotografias, louças, lustres, porcelanas, picotadores de bilhetes, vindas da Sorocabana, da Paulista, da Bragantina e da Mogiana. O acervo rodante incluía duas locomotivas, um bonde e vagões de passageiros, dormitórios, restaurante e correio, construídos entre 1893 e 1927.
Segundo a revista, o museu recebia entre 500 e mil visitantes por mês.
O fim do sonho
Em 2009, Roberto fechou o museu. À Revista Ferroviária ele contou que o motivo foi financeiro e que, depois de anos de promessas de apoio de diferentes prefeitos que não se concretizaram, precisou pensar no futuro da família. Parte do material ferroviário foi a leilão no fim daquele ano, e os vagões-restaurante tinham destino previsto em Caçapava. "Tive o sonho de construir minha própria ferrovia, exatamente como eram as de antigamente, e mostrá-la a todos. É um sonho que agora termina", disse ele à revista.
A reportagem termina com uma cena: Roberto sentado num banco da estação, olhando um exemplar do Correio da Noite de 2 de junho de 1967 com a manchete "Bragantina não cairá sem luta". Não houve luta que a salvasse.
A Estação Atibaia hoje
A estação não desapareceu. Hoje ela funciona como espaço de eventos, segundo a Secretaria de Turismo, na Avenida Jerônimo de Camargo, 6308. A descrição oficial fala em uma área de 205 mil metros quadrados com o prédio da estação, plataforma de embarque e desembarque, 2,3 quilômetros de linha ferroviária, espaço infantil, estacionamento e pista off-road. E menciona um acervo ferroviário com locomotivas, vagões, bonde e peças do século passado, usado na ambientação das festas.
Os números não batem exatamente com os de 2009, que falavam em 2,6 quilômetros de trilhos e terreno de 300 mil metros quadrados; a propriedade pode ter mudado nesse meio-tempo. O espaço recebe casamentos, formaturas, convenções e feiras, com capacidade, segundo a secretaria, para 850 pessoas sentadas.
Dá para visitar?
Como espaço de eventos, a Estação Atibaia não tem visitação aberta regular divulgada. Quem quiser conhecer deve procurar a administração do local. Para ver a fachada e o clima de estação antiga, basta passar pela Jerônimo de Camargo.
Por que vale conhecer a história
Muita gente que mora em Atibaia não sabe que a cidade teve trem por 83 anos. A Bragantina moldou o crescimento da região, e o seu fim, empurrado pela rodovia, marca a troca do trilho pelo asfalto que mudou a região. A Estação Atibaia, mesmo sendo réplica, é o lugar onde essa memória ficou mais visível.
Perguntas frequentes
A Estação Atibaia é uma estação ferroviária original?
Não. Foi construída pelo empresário José Augusto Roberto para abrigar um museu, inspirada nas antigas estações de Caetetuba e Maracanã.
Quando passou o último trem por Atibaia?
Segundo a Wikipédia, o último trem da Estrada de Ferro Bragantina circulou em 21 de junho de 1967.
O Museu Ferroviário ainda existe?
O museu fechou em 2009, e parte do acervo foi leiloada. O local funciona hoje como espaço de eventos.
Mais história de Atibaia
A memória ferroviária convive com a do centro: o Museu Municipal João Batista Conti guarda documentos e fotos da cidade, e o roteiro pelo Centro Histórico de Atibaia mostra o que sobreviveu dos séculos anteriores. Coleciona trens? Procure ferreomodelismo e miniaturas na busca do AtiPerto ou veja os anúncios da cidade de Atibaia.
Foto de capa: Mike Peel (www.mikepeel.net) / Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.